domingo, 17 de março de 2024

Romantismo - 1ª fase

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ROMANTISMO – BRASIL (1ª GERAÇÃO – INDICANISTA/NACIONALISTA)


Na poesia romântica, a evasão no tempo histórico levou o escritor europeu ao passado em busca de um símbolo, de um “herói”. Esse passado foi a Idade Média com os cavaleiros medievais. Já no Brasil, os escritores voltaram-se à uma época anterior, ou seja, época em que não se iniciara ainda a colonização portuguesa e elegeram como símbolo nacional o indígena. 

Essa tendência à poesia indianista valorizava toda a cultura indígena que ainda não havia sido tocada pela cultura europeia. A base dessa concepção foi construída sobre o mito do bom selvagem, desenvolvido a partir das ideias do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Para Rousseau, o ser humano em si é bom, o que o leva a desenvolver a ambição, o individualismo, o materialismo é a vida em sociedade. Ou seja, o homem nasce bom; a sociedade é que o corrompe.

Gonçalves Dias foi o grande representante da 1ª geração, na poesia. Já na prosa, temos José de Alencar (veremos em outro momento).

Gonçalves Dias, buscando captar a sensibilidade e os sentimentos do nosso povo, criou uma poesia voltada para o índio e para a natureza brasileira, expressa numa linguagem simples e acessível. Sua obra poética inclui os gêneros lírico e épico. Na épica, canta os feitos heroicos de índios valorosos, substitutos do herói medieval europeu. Na lírica, tem como temas mais comuns a pátria, a natureza, Deus, o índio e o amor não correspondido.

CEREJA, William Roberto. Português: linguagens.


LEITURA


O texto a seguir é o canto IV de “I-Juca-Pirama” de Gonçalves Dias. Conforme as tradições indígenas, o prisioneiro é preparado para um cerimonial antropofágico em que serão vingados os mortos timbiras. Ao lhe pedirem, como é próprio do ritual, que canta seus feitos de guerra e que se defenda da morte, o prisioneiro responde aos inimigos: (cuidado, pois a coluna de versos termina no outro lado!)



CANTO IV


Meu canto de morte

Guerreiros, ouvi:

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo

Da tribo tupi.


Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.


Já vi cruas brigas,

De tribos imigas (inimigas),

E as duras fadigas

Da guerra provei;

Nas ondas mendaces (mentirosas)

Senti pelas faces

Os silvos (assobio) fugaces (foge veloz)

Dos ventos que amei.


Andei longes terras

Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras

Dos vis Aimorés;

Vi lutas de bravos,

Vi fortes — escravos!

De estranhos ignavos (covardes)

Calcados aos pés.


E os campos talados (devastados),

E os arcos quebrados,

E os piagas (pajés) coitados

Já sem maracás (tipo de chocalho);

E os meigos cantores,

Servindo a senhores,

Que vinham traidores,

Com mostras de paz.


Aos golpes do inimigo,

Meu último amigo,

Sem lar, sem abrigo

Caiu junto a mim!

Com plácido rosto,

Sereno e composto,

O acerbo (doloroso) desgosto

Comigo sofri.


Meu pai a meu lado

Já cego e quebrado,

De penas ralado,

Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos,

Por ínvios (intransitáveis) caminhos,

Cobertos d'espinhos

Chegamos aqui!


O velho no entanto

Sofrendo já tanto

De fome e quebranto,

Só qu'ria morrer!

Não mais me contenho,

Nas matas me embrenho,

Das frechas (flechas) que tenho

Me quero valer.


Então, forasteiro,

Caí prisioneiro

De um troço (corpo de tropas) guerreiro

Com que me encontrei:

O cru dessossego

Do pai fraco e cego,

Enquanto não chego

Qual seja, — dizei!


Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deus lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descansava,

Que filho lhe sou.


Ao velho coitado

De penas ralado,

Já cego e quebrado,

Que resta? — Morrer.

Enquanto descreve

O giro tão breve

Da vida que teve,

Deixai-me viver!


Não vil (desprezível), não ignavo,

Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo:

Aqui virei ter.

Guerreiros, não coro

Do pranto que choro:

Se a vida deploro (lamento),

Também sei morrer.


(Poemas de Gonçalves Dias. Seleção de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p. 119-122.)


APENAS RESPOSTAS NO CADERNO (ORGANIZADAMENTE!)


Há mais alguma palavra no texto que você não conseguiu entender pelo contexto? Escreva-a abaixo e procure um significado que combine com os versos:



  1. Nesse canto do poema, o índio tupi narra a trajetória de sua vida e de sua tribo.

  1. Como o índio via a si mesmo, até o momento em que foi aprisionado?

  2. Qual é a atual condição de sua tribo?

  3. Com quem e por que o índio tupi foge?


  1. Na 6ª estrofe do texto, o prisioneiro faz um pedido aos inimigos: “Deixai-me viver!”.

  1. Que motivos alega, na 10ª e na 11ª estrofes, para que o deixe vivo?

  2. Identifique na última estrofe os versos em que o prisioneiro propõe um acordo. Qual é esse acordo?


  1. Seguindo os modelos do Romantismo europeu e a atração pelo medievalismo, nossos escritores encontraram no índio brasileiro o representante mais direto de nosso passado medieval – único habitante nestas terras antes do Descobrimento. Além disso, vivendo distante da civilização, nosso índio correspondia plenamente à concepção idealizada do “bom selvagem”, defendida por Rousseau. Observe o comportamento do índio tupi e indique:

  1. Uma característica dele que se assemelhe às do cavaleiro medieval.

  2. Uma atitude dele que reforce o mito do “bom selvagem”.



  1. Pesquise na internet, uma poesia de Gonçalves Dias que represente sua lírica, com temas como: a pátria, a natureza, Deus, o índio e o amor não correspondido. Copie em seu caderno, pelo menos 1 estrofe, aquele que chamou sua atenção. Depois, escreva o motivo da escolha e qual o tema da poesia.





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